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dimanche 1 février 2026

China refuta a tese do Tecnofeudalismo de Varoufakis

FONTE: 

Nesta pequena cápsula desmontamos desde o marxismo e o materialismo histórico a tese do Tecnofeudalismo, formulada por Yanis Varoufakis, que nos últimos anos ganhou ampla difusão entre a progressia occidental. Segundo ela, o capitalismo teria morrido e sido substituído por uma nova forma de feudalismo digital, no qual as grandes plataformas tecnológicas funcionam como feudos, e nós, usuários, trabalhadores e pequenos produtores, somos outra vez como servos que pagam tributos aos novos senhores feudais, os Bezos, Zuckerberg ou Musk.

A tese contém uma intuição correta e poderosa. Contudo, do ponto de vista do materialismo dialético, ela é completamente insuficiente, parcial e mesmo contraproducente para a classe trabalhadora tomar consciência da teoria correta que explica o funcionamento do capitalismo e a sua superação. Este artigo procura conservar integralmente as ideias apresentadas numa análise original dum vídeo do canal marxista Frases de Marx, mostrando que o tecnofeudalismo não é nenhuma lei tecnológica inevitável, mas o resultado histórico concreto de determinadas relações entre capital, Estado e produção, sem sair do modo de produção capitalista.

O caso da China desempenha aqui um papel central, pois demonstra empiricamente que a mesma tecnologia digital e o seu avance pode gerar resultados sociais e políticos radicalmente distintos.

1. A tese de Varoufakis: do capitalismo ao tecnofeudalismo

1.1. Capitalismo clássico e concorrência produtiva

No capitalismo clássico analisado por Marx no século XIX, a concorrência entre capitais dava-se fundamentalmente no terreno da produção. Empresas como Ford e General Motors competiam fabricando automóveis. Vencia quem conseguisse produzir mercadorias melhores e mais baratas.

A exploração capitalista manifestava-se através da apropriação direta da mais-valia: o trabalhador produzia valor através do seu trabalho vivo, e o capitalista apropriava-se diretamente desse valor excedente. Havia exploração, mas havia também produção real de valor.

1.2. As plataformas digitais e a ruptura do modelo produtivo

As grandes plataformas digitais atuais — Amazon, Google, Facebook/Meta — não funcionam segundo essa lógica. Elas praticamente não produzem bens materiais. Não fabricam mercadorias no sentido clássico. Ainda assim, são as empresas mais valorizadas do mundo.

O que fam, então? Controlam os territórios digitais onde ocorre o comércio, a comunicação e a vida social contemporânea. São donas do espaço no qual todos somos obrigados a circular.

1.3. A analogia feudal

Aqui Varoufakis acerta parcialmente ao estabelecer uma analogia com o feudalismo medieval. O senhor feudal não produzia trigo nem fabricava ferramentas. Era dono da terra. Quem quisesse produzir precisava usar essa terra e pagar tributo.

O mesmo ocorre hoje em ocidente em versão digital. Para vender online é necessário passar pola Amazon e pagar comissões que variam entre 15% e 45%. Não porque a Amazon crie valor ou melhore o produto, mas simplesmente porque controla o território do mercado.

Estamos perante uma forma de extração de renda, não de criação de valor. Eis o núcleo da tese do tecnofeudalismo.

Os limites históricos e teóricos da metáfora feudal

Apesar da utilidade descritiva da noção de tecnofeudalismo, é necessário introduzir aqui uma precisão conceitual importante. Do ponto de vista histórico rigoroso, chamar à forma atual de dominação digital um “feudalismo” constitui um exagero teórico.

No feudalismo propriamente dito, a terra era o meio de produção fundamental. Os camponeses encontravam-se juridicamente ligados a ela, e a relação com o senhor feudal era uma relação pessoal de dominação, sancionada por vínculos jurídicos e políticos diretos. A exploração não se dava através do mercado, mas através de obrigações extraeconómicas explícitas como trabalho forçado gratuito, rendas em espécie, tributos compulsórios e a submissão direta à autoridade jurídica e política do senhor feudal.

No capitalismo digital contemporâneo, por mais concentrado e assimétrico que seja o poder das plataformas, não existe uma relação de servidão jurídica direta. Os trabalhadores, produtores e consumidores continuam formalmente inseridos em relações de mercado, mediadas polo salário, polo contrato e pola concorrência. As Big Tech não dominam porque nos possuem juridicamente, mas porque controlam dados, infraestruturas e posições monopolistas estratégicas.

Nesse sentido, o tecnofeudalismo funciona sobretudo como uma metáfora crítica, útil para chamar a atenção para a concentração extrema de poder e para a dependência tecnológica crescente, mas problemática se tomada como categoria histórica ou económica literal. O risco é obscurecer a compreensão do fenómeno enquanto forma específica do próprio capitalismo, e não como um retorno real a um modo de produção pré-capitalista.

É precisamente por isso que a análise deve avançar além da metáfora e regressar às categorias centrais do materialismo histórico: relações de produção, formas de apropriação do valor, e articulação entre capital e Estado. Vejamos.

2. Extração de renda versus produção de valor

2.1. Diferença fundamental em relação ao capitalismo clássico

No capitalismo industrial, mesmo na exploração, havia produção de valor real. No tecnofeudalismo descrito por Varoufakis, os senhores feudais digitais não criam valor: limitam-se a extrair renda polo controle do acesso.

Bezos não ajuda o vendedor a produzir melhor; cobra tributos por permitir que ele venda. Zuckerberg não melhora a comunicação; cobra polo acesso à própria audiência.

2.2. O tecnofeudalismo como fenómeno localizado

Se o tecnofeudalismo fosse uma consequência automática da tecnologia digital, deveria manifestar-se em todos os países com plataformas digitais avançadas. Mas isso não acontece.

E aqui surge a pergunta decisiva que Varoufakis não colocou de forma suficiente: por que razão na China não existem Jeff Bezos todo-poderosos?

3. O caso chinês: plataformas sem senhores feudais privados

3.1. Plataformas gigantes, mesma tecnologia. O caso Jack Ma

A China alberga algumas das maiores plataformas digitais do mundo. A Alibaba supera a Amazon em volume de transações no comércio eletrónico, o WeChat conta com mais de mil milhões de utilizadores ativos e o Douyin domina amplamente o mercado de vídeo curto no país. A tecnologia empregada é equivalente à ocidental: infraestruturas digitais avançadas, algoritmos de recomendação semelhantes e modelos de plataforma comparáveis.

A diferença decisiva não reside, portanto, na técnica, mas na relação de poder. Em 2020, Jack Ma, fundador da Alibaba e então o homem mais rico da China, criticou publicamente a regulação financeira chinesa — um tipo de discurso habitual entre bilionários tecnológicos no Ocidente. A resposta do Estado foi imediata: Jack Ma desapareceu da vida pública durante meses, a Ant Group viu suspensa a maior IPO da história e foi forçada a reestruturar-se, e a Alibaba foi fragmentada e submetida a fortes sanções regulatórias.

Jack Ma permaneceu rico, mas perdeu qualquer autonomia política. Deixou de ser um “senhor” de coisa alguma. Uma intervenção desta magnitude seria impensável nos Estados Unidos ou na União Europeia.

3.2. A inversão da relação de poder

Na China, o Partido Comunista mantém o controlo material sobre os grandes empresários tecnológicos; no Ocidente, ocorre o inverso, são os magnatas das Big Tech a condicionarem diretamente o poder político. Quando uma empresa chinesa acumula poder excessivo ou ameaça objetivos sociais definidos polo Estado, é disciplinada, fragmentada ou reestruturada.

Um exemplo claro foi o setor da educação privada online, que movimentava dezenas de milhares de milhões de dólares. Em 2021, o Estado decidiu que a educação não podia ser um negócio lucrativo e proibiu a atividade com fins lucrativos, destruindo em poucos dias grande parte do valor bolsista do setor.

Estes casos mostram que, apesar da existência de plataformas privadas gigantescas e da exploração capitalista do trabalho, não emergem na China senhores feudais digitais autónomos. O capital tecnológico permanece subordinado ao poder político estatal, e não o contrário.

4. Regime dos dados. Quem controla os dados controla o poder: China versus Ocidente

No capitalismo digital ocidental, os dados pessoais constituem uma forma central de propriedade privada. As grandes plataformas apropriam-se integralmente das informações geradas pola atividade quotidiana dos utilizadores — comunicações, deslocações, hábitos de consumo — e transformam-nas em mercadoria. Estes dados são monetizados através de publicidade dirigida, vendidos a terceiros ou utilizados para moldar e antecipar comportamentos, convertendo os próprios utilizadores em matéria-prima do processo de acumulação.

Este regime de propriedade privada dos dados confere às Big Tech um poder económico e político extraordinário. Empresas como Google, Meta ou Amazon controlam volumes de informação superiores aos de muitos Estados, sem qualquer controlo público efetivo, o que lhes permite influenciar mercados, processos políticos e dinâmicas sociais de larga escala.

Na China, embora as plataformas também recolham dados em massa e participem na exploração capitalista, estes não constituem propriedade privada absoluta das empresas. O Estado mantém acesso legal e capacidade de intervenção direta sobre os fluxos de dados considerados estratégicos, enquadrando as plataformas como gestoras subordinadas de infraestruturas informacionais. Na prática, isto significa que os dados não pertencem exclusivamente às empresas: as plataformas são obrigadas a armazenar informação sensível em servidores localizados no território nacional, a partilhar dados com autoridades reguladoras e a integrar-se em sistemas públicos de supervisão, como ocorre com dados financeiros, logísticos, de mobilidade ou de comunicações.

Este modelo implica certos problemas de vigilância e controlo social, mas impede que os dados se convertam numa base autónoma de poder privado. Ao contrário do Ocidente, onde empresas como Google ou Meta controlam sozinhas infraestruturas informacionais globais, na China nenhuma plataforma pode transformar os dados num recurso político independente do Estado.

Assim, a diferença fundamental não reside na quantidade de dados recolhidos, mas na sua forma de propriedade e no tipo de poder que deles deriva: no Ocidente, os dados reforçam a autonomia política do capital tecnológico; na China, permanecem integrados numa estrutura de controlo estatal que limita a formação de feudos digitais privados.

5. Capital produtivo e capital fictício: a chave marxista

Em O Capital, Marx distingue claramente o capital produtivo do capital fictício. O primeiro investe em meios de produção e em trabalho vivo, transformando materialmente a realidade e gerando valor novo através da exploração da força de trabalho. Toda a riqueza social, por mais abstrata que pareça, assenta em última instância neste processo material de produção. Recomendamos aqui a leitura dos artigos de Capitalismo (I): Andrés Piqueras. Crises do Capitalismo. A fase terminal e Capitalismo (II): Trabalho Produtivo e Improdutivo, uma perspetiva marxista, com Andrés Piqueras analisando a diferença entre trabalho produtivo e improdutivo.

O capital fictício, polo contrário, apresenta-se como dinheiro que gera mais dinheiro sem passar pola produção: ações, títulos, derivados financeiros e valorização bolsista. Trata-se de uma forma fetichizada do capital, que não cria valor, mas representa direitos de apropriação sobre valor futuro ou redistribui valor produzido noutro lugar. Como Marx já assinalava, este capital parece autonomizar-se da produção, ocultando a sua dependência do trabalho vivo.

Desde os anos 1980, o Ocidente conheceu um processo profundo de financeirização. A economia deslocou-se da indústria para os mercados financeiros: Wall Street substituiu Detroit como centro dinâmico da acumulação. Hoje, uma parte crescente dos lucros corporativos nos Estados Unidos provém de atividades financeiras, enquanto a produção material foi deslocalizada para outras regiões do mundo.

As grandes plataformas digitais ajustam-se perfeitamente a este modelo financeirizado. Apesar de empregarem relativamente poucos trabalhadores e produzirem poucos bens materiais, concentram capitalizações bolsistas gigantescas, baseadas em expectativas futuras e no controlo de infraestruturas digitais. A sua força não reside na produção direta de valor, mas na capacidade de capturar rendas e atrair fluxos financeiros, evitando as contradições clássicas da produção industrial — sindicatos, greves, custos fixos elevados.

É neste contexto que o tecnofeudalismo emerge no Ocidente: não como superação do capitalismo, mas como expressão extrema do domínio do capital fictício sobre o capital produtivo.

6. Por que a China seguiu outro caminho

Ao contrário do Ocidente, a China nunca permitiu que o capital financeiro se autonomizasse e subordinasse o capital produtivo. Desde o início das reformas, a prioridade estratégica manteve-se na produção material: indústria, manufatura, infraestrutura, energia e tecnologia aplicada à produção. Ainda hoje, uma parte significativa do investimento total concentra-se em setores produtivos, e a indústria continua a desempenhar um papel central na criação de valor e no emprego.

Esta orientação materialista reflete-se na forma como as plataformas digitais são integradas na economia. As grandes empresas tecnológicas chinesas não substituem a produção por extração parasitária de renda, como ocorre no Ocidente, mas funcionam sobretudo como instrumentos de apoio à circulação, logística, pagamentos e organização da produção. Quando tentam autonomizar-se como capital financeiro ou impor modelos rentistas, são rapidamente disciplinadas.

A razão fundamental desta diferença reside no controlo estatal material. No sistema financeiro chinês, apesar de existir uma diversidade de bancos, os grandes bancos estatais dominam a maior parte dos ativos bancários: os seis maiores bancos comerciais estatais (ICBC, CCB, ABC, Bank of China, Postal Savings Bank e Bank of Communications) detinham cerca de 41,7 % dos ativos de todo o sistema bancário chinês no final de 2023, e o Estado permanece como acionista maioritário nestas instituições através do Ministério das Finanças, da Central Huijin Investment e outras holdings públicas.

Para além disso, o Estado controla sectores estratégicos fundamentais da economia através de empresas públicas e sociedades de economia mista que figuram entre as maiores do país, com as estatais a representar mais de 40 % do PIB e a manter participação dominante em sectores como energia, telecomunicações e infra-estrutura.

Este domínio confere-lhe um poder real — e não meramente regulatório — para intervir sobre o capital privado. Ao controlar o acesso ao crédito, às licenças, às infraestruturas e aos mercados-chave, o Estado pode impor limites efetivos à acumulação privada excessiva.

Deste modo, embora a China utilize uma economia de mercado com exploração do trabalho e contradições próprias, não se desenvolve ali um tecnofeudalismo à maneira ocidental. O capital tecnológico permanece subordinado a uma estratégia produtiva e a um poder político estatal que não abdica do controlo dos meios fundamentais da acumulação.

7. Crítica dialética a Varoufakis

A análise de Varoufakis descreve com precisão um fenómeno real do capitalismo contemporâneo ocidental: a crescente centralidade das plataformas digitais, a transformação do lucro em renda e a subordinação de vastas camadas sociais a infraestruturas privadas. O erro não está no diagnóstico empírico parcial, mas na sua universalização teórica. Ao apresentar o tecnofeudalismo como uma nova etapa histórica inevitável, Varoufakis transforma um resultado político e histórico concreto numa suposta lei da tecnologia digital.

Do ponto de vista do materialismo dialético, esta inversão é problemática. As formas sociais não derivam diretamente da técnica, mas das relações materiais de poder, propriedade e produção. O mesmo desenvolvimento tecnológico gera resultados distintos consoante a correlação de forças entre capital, Estado e trabalho. O caso chinês demonstra empiricamente que não existe qualquer automatismo tecnológico que conduza do capitalismo ao feudalismo digital.

O tecnofeudalismo não é, portanto, a superação do capitalismo, mas uma forma específica da sua degeneração financeirizada, própria de sociedades em que o Estado foi politicamente derrotado polo capital financeiro e abdicou do controlo material dos meios estratégicos da acumulação. Ao deslocar o foco da análise das relações de classe e da luita política para a tecnologia em abstrato, a tese de Varoufakis obscurece o verdadeiro terreno da transformação social revolucionária.

Assim, longe de ajudar a compreender como superar o capitalismo, o conceito de tecnofeudalismo tende a naturalizar uma configuração histórica particular, a abstrair da história e a idealizar, desviando a atenção da tarefa central do marxismo: identificar as contradições materiais reais e organizar a sua superação consciente.

8. As contradições internas do tecnofeudalismo

O denominado por Varoufakis tecnofeudalismo, apresenta contradições internas profundas que colocam em causa a sua própria reprodução histórica. A extração sistemática de renda sem produção de valor novo tende a empobrecer a base produtiva da qual depende. Ao capturarem uma parte crescente do rendimento de produtores, trabalhadores e pequenos negócios, as plataformas digitais estrangulam a acumulação real, reduzindo investimento produtivo, salários e capacidade de consumo.

Este parasitismo manifesta-se empiricamente na precarização generalizada do trabalho de plataforma, na compressão das margens dos vendedores dependentes das Big Tech e na crescente concentração de riqueza. Nos Estados Unidos, por exemplo, as grandes plataformas tecnológicas concentram capitalizações bolsistas superiores ao PIB de muitos países, ao mesmo tempo que empregam relativamente poucos trabalhadores diretos, aprofundando a dissociação entre valorização financeira e produção material.

Ao minar salários, destruir pequenos produtores e subordinar vastos setores sociais a infraestruturas privadas, o tecnofeudalismo corrói as próprias condições da sua reprodução. A redução do poder de compra, o endividamento crónico e a instabilidade social tornam-se tendências estruturais, revelando um sistema que se autodestrói ao explorar em excesso a sua base material.

Estas contradições geram inevitavelmente resistência social. Trabalhadores de plataformas, pequenos vendedores e utilizadores partilham interesses objetivos contra a extração rentista das Big Tech. Como já indicava Marx, o capitalismo engendra o seu próprio contrário: a negatividade surge do interior do próprio processo, criando sujeitos e conflitos que apontam para a sua superação.

Por fim, o tecnofeudalismo agrava as contradições geopolíticas do capitalismo global. A concentração de infraestruturas digitais em poucas empresas sediadas em determinados países intensifica disputas entre Estados, fragmenta mercados e acelera processos de desglobalização tecnológica. Estas fissuras revelam que o tecnofeudalismo não constitui um novo equilíbrio estável, mas uma forma historicamente transitória, atravessada por tensões económicas, sociais e políticas crescentes.

Conclusão: para além do tecnofeudalismo

O tecnofeudalismo não é inevitável. Trata-se de uma forma histórica específica do capital financeiro digitalizado, própria do Ocidente capitalista e das suas democracias burguesas, nas quais o capital privado acumulou tal poder material que conseguiu subordinar o Estado e dominar sobre o poder político. Onde estas relações económicas se alteram, altera-se também o resultado.

A limitação fundamental da tese de Varoufakis não está na sua descrição do presente ocidental, mas na forma como tende a naturalizar essa configuração histórica, apresentando-a como uma nova etapa quase necessária do desenvolvimento tecnológico. Do ponto de vista do materialismo dialético, esta leitura inverte a relação entre técnica e poder: não é a tecnologia que produz automaticamente novas formas sociais, mas as relações de propriedade, de produção e de dominação política que determinam o uso social da técnica.

O caso chinês demonstra empiricamente que o desenvolvimento das plataformas digitais não conduz inevitavelmente à formação de feudos privados autónomos. Com a mesma tecnologia, surgem resultados distintos quando o capital financeiro permanece subordinado ao poder político e à primazia da produção material. O tecnofeudalismo revela-se, assim, não como uma superação do capitalismo, mas como uma forma específica da sua degeneração financeirizada, resultante de uma correlação de forças historicamente determinada.

O desafio histórico central não consiste apenas em diagnosticar esta forma de dominação, mas em identificar o sujeito e o terreno da sua superação. Nem a descrição crítica do tecnofeudalismo, nem a constatação de que ele não é inevitável, respondem por si mesmas à questão decisiva: como podem os explorados do capitalismo digital organizar-se para transformar materialmente estas relações económicas?

A resposta não passa por regulações tímidas nem por reformas social-democratas do capitalismo digital, como as que pretende o programa de Varoufakis, mas pola disputa do controlo material das infraestruturas construídas polo trabalho coletivo. A apropriação social das plataformas e a tomada dos meios de produção digitais constituem a única via coerente, desde o marxismo, para ir verdadeiramente para além do tecnofeudalismo.


Notas de fontes

  • 41,7 % dos ativos bancários controlados polos seis maiores bancos com maioria estatal no sistema bancário chinês — dados estruturais compilados pola OCDE.
  • Estatais representam cerca de 40 % do PIB e sectores estratégicos sob controle estatal segundo análises sobre a economia chinesa contemporânea. https://noticias.portaldaindustria.com.br/noticias/economia/estatais-representam-mais-de-40-do-pib-da-china/?utm_source=chatgpt.com

La Ilustración Oscura y la anexión de Groenlandia

 FUENTE https://observatoriocrisis.com/2026/02/01/la-ilustracion-oscura-y-la-anexion-de-groenlandia/

 

Los “neorreacionarios” de Silicon Valley, a través de Praxis, ya están desarrollando ciudades inteligentes en Groenlandia.

Alejandro Estrella González , Doctor en Filosofía de la Universidad de Cádiz

I

Tras la denominada “Operación Determinación Absoluta” del pasado 3 de enero que culminó con el secuestro de Nicolás Maduro (cada vez estoy más convencido de que quienes ponen nombre a este tipo de operativos sufren de algún trauma sexual que requiere con urgencia terapia de larga duración; algo así como: “Operación Lacan Infinito”), las ambiciones de la administración Trump sobre Groenlandia se han convertido en asunto de enorme relevancia, tanto en la prensa internacional, como entre los gobiernos y el grueso de la ciudadanía, especialmente de Europa y Canadá.

Hace sólo un par de días, mi madre me llamaba desde España sumamente preocupada preguntándome qué iba a ocurrir con todo esto e incluso, con cierto rubor, si yo creía necesario hacer acopio de algún tipo de producto de primera necesidad. Mi primera reacción fue tomármelo un poco a broma, al pensar en esa ternura ciega que guía a toda madre cuando mira a su retoño y ve en él, desde la cuna hasta la tumba, una especie de semidiós griego; en mi caso: una pitonisa del dios Apolo, de la vetusta Delfos. 

Pero inmediatamente comprendí que esta repentina conversión de mi madre a la cultura prepper era un síntoma inequívoco de que, hasta en aquel alejado rincón de la Baja Andalucía, la “gente sabe” (sí: la gente sabe, aunque no vote lo que tú quieres, camarada) que el rasgo característico de esta época es la incertidumbre y la impotencia frente a decisiones fundamentales que toman otros en otros lugares, sin nuestro consentimiento, sin canales institucionales y por la fuerza de los hechos. 

Es el triunfo de la voluntad de Riefenstahl, o, desde el otro lado de la trinchera, del estado de policía de Foucault, o del tiempo de la dueñidad de Rita Segato. Mi madre, y como ella millones de ciudadanos, saben esto y saben muy bien que, en este contexto, nuestro horizonte de expectativas, nuestras certezas sobre el mañana se reducen hasta prácticamente solaparse con el presente. El fantasma de los Sex Pistols recorre Andalucía: No Future!

—Mamá, no tengo ni idea —le dije—. Lo que sí sé es que la cosa está fea. Pero poco puedo decirte sobre qué ocurrirá a medio plazo. Es cierto que hay mucha bravuconería en todo esto. Pero, a la larga, me preocupan tus nietos.

—¡Hombre! ¿Por qué crees que te llamo?

II

Enero de 2026 y ¡en estas estamos! Qué razón llevaba Lenin cuando decía aquello de que “en la historia hay días que valen por años y años que valen por días”. El tiempo histórico no es un quantum homogéneo. La historia frena y se acelera, cambia de ritmo y a veces incluso se demora. Así, lo que hace un suspiro hubiera sido sólo imaginable por cerebros defensores de la planicie de la Tierra ocupa ahora el centro de tabloides y provoca desvelos de abuelas y padres. 

Esta desquiciante cascada de acontecimientos desafía lo que hasta ayer considerábamos esperable y normal. Y aunque lo normal y lo esperable no son sino el olvido de cómo se normalizó lo anormal y lo inesperado, creo que esta época de locos que se abre ante nosotros tiene algo de “venganza de los freaks”, cosa seria que espero lograr mostrar a lo largo del texto.

Los analistas sobre el caso de Groenlandia se dividen en tres tipos (aunque pueden combinarse): a) los que dicen que el motivo central es económico: recursos naturales y control de las rutas marítimas cuando el Ártico, según los negacionistas de la Casa Blanca, se derrita; b) los que dicen que el objetivo es geopolítico y militar, porque el tablero se ha repartido entre tres grandes potencias y Europa pinta lo que yo en el Dream Team; y c) quienes afirman que en realidad se trata de otra locura megalómana de un presidente que aspira a remodelar el Monte Rushmore y sustituir las esculturas de Washington, Jefferson, Lincoln y Roosevelt por la suya, solo, mirando a la lontananza con gesto grave, pero plagado de alegres cabras —digo yo que debe haber muchas por esos riscos— haciendo cosas de cabras sobre su pétreo copete.

Como siempre ocurre, “la verdad está en las grietas”. Y es probable que en las mentes que han maquinado este oscuro asunto se mezclen factores de una u otra índole. Pero permítanme añadir algo distinto de lo que, sólo ahora y de manera marginal, se empieza a hablar y que, sin embargo, considero sumamente relevante. El enfoque que les propongo nos desplaza a un lugar bien alejado de las gélidas aguas del Ártico. De hecho, su imagen evoca todo lo contrario: las soleadas playas de California. En concreto, fijémonos en esa pequeña región cuyo PIB supera al de países como Suecia, Austria, Noruega o al de la propia Dinamarca: Silicon Valley.

III

Andaba yo en 2024 haciendo honores al centenario del nacimiento de E.P. Thompson cuando de forma bastante azarosa llamó mi atención una extraña noticia en la que se hablaba de la inminente celebración de unos juegos olímpicos en los EE. UU., en los cuales los atletas podían doparse a discreción sin los engorrosos controles de los organismos internacionales. 

Los Enhance Games, una oda al deporte convertido en rave, apelaba a los principios de la libertad individual, de la propiedad privada y del progreso de la ciencia. Entre sus promotores estaban el propio presidente Trump, su hijo junior y un oscuro personaje del que hablaré un poco más adelante. Todo aquello me parecía un poco freak. Así que, presa de la curiosidad y del morbo, comencé a meter las narices en el asunto. Aquello era un vertedero. Una trama realmente espeluznante cuyas ramificaciones me llevaban en direcciones inesperadas. Una de ellas era Silicon Valley.

Llegó entonces aquel 5 de noviembre de 2024, cuando Donald Trump tomó posesión por segunda vez de la presidencia de los EE. UU. De aquella fastuosa ceremonia todo el mundo recuerda esa fotografía que pasará a la historia de la infamia del republicanismo democrático: el rey escoltado por la plana mayor de los varones tecnológicos de Silicon Valley. Esa imagen me hizo entender que era urgente dilucidar en qué medida era cierto aquello que el papa Francisco, inspirado por Ortega y Gasset (¡qué escándalo en el Opus Dei!), había sugerido ya en 2019: “estamos viviendo, no una época de cambios, sino un cambio de época”.

Tras excusarme solemne y respetuosamente con E.P. Thompson —quien se me apareció en sueños para darme su bendición— me dediqué a escribir una serie de cinco artículos en la Revista Común (aquí dejo el primero) que ensayaban una primera aproximación a este asunto. En concreto, mi atención se centraba en una tendencia específica en el seno del trumpismo; una tendencia que no debe confundirse con los MAGA, ni con los evangélicos, ni con Wall Street, ni con cualquier otra de las que se dan cita en la heterogénea coalición trumpista: el movimiento neorreaccionario. 

Conocido por su acrónimo NRx, fue tematizado por Nick Land —ese delirante deleuziano de derechas afincado en Shangai y padre del aceleracionismo— bajo el término Ilustración Oscura. He dedicado el 2025 a estudiar las ideas de este proyecto, que se presenta como una revisión crítica de la modernidad occidental. También me he dedicado a reconstruir lo que denomino como la reactoesfera, espacio donde se dan cita blogueros y académicos marginados, aventureros digitales, comunidades incel, “racistas científicos” que apelan a la eugenesia y a la biodiversidad, tradicionalistas religiosos, housewifes antifeministas, tecno-futuristas libertarios y pensadores políticos “jacobitas”.

Este pequeño mundo, plagado de personajes bizarros e ideas desquiciadas, posee una lógica sociológica muy particular y es fruto de un contexto histórico específico. Y si bien no cabe hablar de un movimiento sistemático y organizado, resulta sumamente relevante señalar el estrecho vínculo entre algunos de sus integrantes más destacados (Curtis Yarvin, Nick Land, Hermann Hoppe, Anatoly Karlin y Steve Hsu, entre otros) e importantes sectores de Silicon Valley que cuentan con influencia determinante en la Casa Blanca.

Durante la década del 2000, Silicon Valley se presentaba a ojos del resto de los mortales como un nido de freaks cuya inteligencia analítica era inversamente proporcional a su inteligencia emocional. De este curioso mundo surgieron dos lecturas contrapuestas: la amable y simpática que, con series de éxito como Big Bang Theory o Silicon Valley,convertían la neurodivergencia en un asunto entrañable; y la oscura y terrorífica que, poco después, Nick Land desarrollaría en su ya clásico The Dark Enlightenment, donde discriminaba a la humanidad entre dos tipos fundamentales: autistas que inventan cosas, y gente que usa esas cosas que no entiende y se burla de los autistas que las inventan. Pero entonces, estallaron la gran crisis de 2008 y la pandemia de 2019. La hora de “la venganza de los freaks” había llegado.

Cedric Durand, en su imprescindible Tecnofeudalismo. Crítica de la economía digital, expone cómo las Big Techs llegaron a ocupar un lugar decisivo dentro de la estructura del capitalismo norteamericano, especialmente tras 2019. Con el libertarismo como hilo conductor, presenta una genealogía de Silicon Valley que transita de la revuelta hippie de los 1970, al neoliberalismo de los 1990 y desemboca en posiciones antiliberales en los 2010. Ahora, en la cúspide del poder económico, Silicon Valley prepara el asalto al poder político y cultural.

En esta empresa, un sector particular de Silicon Valley destaca sobre el resto. Se trata de una serie de agentes económicos vinculados a los fondos de inversión de riesgo, la ciberseguridad, la IA y las criptomonedas. Estamos hablando, entre otros, de Palantir(Peter Thiel y Alex Karp), SpaceX-Starlink (Elon Musk), Pronomos Capital (Patrick Friedman, Balaji Srinivasan), a16zCapital (Marc Andreessen y Ben Horowitz) y Oracle (Larry Ellison), por poner algunos ejemplos. Este sector de Silicon Valley es el que se vincula con agentes destacados de la reactoesfera y, por medio de ellos, conecta con el proyecto de la Ilustración Oscura.

IV

En líneas generales, la Ilustración Oscura parte de la tesis de que el actual sistema social y político está dominado por una elite intelectual-burocrática que concentra el poder ideológico y dirige las políticas públicas. Esta especie de casta brahmánicasegún dicha tesis, es producto de las grandes universidades y de las empresas culturales mainstream, desde Harvard hasta Hollywood, pasando por el New York Times. Curtis Yarvin la denomina “The Cathedral”, y clasifica a sus miembros como herederos de un modelo cultural y político que hunde sus raíces en la Ilustración.

La Ilustración es para la neorreacción una perversión de la modernidad occidental, perversión que tiene su origen en la secularización de la revolución calvinista, representada por Rousseau, Kant y Hegel, quienes forjaron los fundamentos intelectuales del universalismo republicano. Los siglos XIX y XX son testigos de cómo este proyecto se extendió adoptando formas nuevas: el socialismo, la política de masas, la democracia, el estado redistributivo, el New Deal, la lucha los derechos civiles, los movimientos de descolonización, etc.  

En el plano internacional, la Ilustración se traduce en la ambición por construir una sociedad de naciones dotada de instituciones globales con capacidad para mediar conflictos y regular los tratados. Comunidad de iguales que reconoce, sin embargo, el liderazgo norteamericano, hegemón que asume esta responsabilidad histórica, siguiendo la estela marcada por Woodrow Wilson tras la I Guerra Mundial.

Este sistema, de bases religiosas y humanistas, fundado sobre la errónea idea de progreso e igualdad, es, para los neorreaccionarios, injusto, ineficaz y, lo más importante, inmodificable. Por este motivo la neorreacción no debe confundirse con el conservadurismo. El conservadurismo asume el marco discursivo y moral del progresismo ilustrado, aunque intenta retrasar en lo posible los cambios que impone el marco de sentido dominante. Los neorreaccionarios, en cambio, rompen con este marco y renuncian a la política de masas.

La estrategia de NRx, nos recuerdan Yarvin y Land —tergiversando el clásico de Albert Hirschman (aunque sin citarlo)—, es la de la salida, no la de la voz. La voz es la dialéctica: la creencia en que los conflictos pueden resolverse en un futuro mediante la política, lo que fundamenta precisamente la idea de progreso. La salida, en cambio, niega esta creencia y sustituye, digámoslo así, el tiempo por el espacio. 

De lo que se trata, frente a la dialéctica política, es de romper el orden social e internacional mediante la fragmentación, mediante la creación de una red estilo patchwork; es decir, de pequeñas organizaciones soberanas, ciudades estado o comunidades culturalmente homogéneas. Hermann Hoppe no duda en asociar la estrategia del exit con conceptos como los de secesión y segregación, en absoluto inocentes en el marco de la cultura política norteamericana.

Son varios los proyectos que, bien en términos programáticos, bien como experimentos prácticos, se están llevando a cabo inspirados en estas ideas y financiados con dinero de Silicon Valley. Patchwork y Urbit (ideados por Curtis Yarvin), el Seasteading (proyecto de plataformas marinas financiado por Pronomos Capital), la colonización de Marte de SpaceX, o la creación de ciudades-corporaciones, como Prospera en Honduras (dirigida por un fondo privado dirigido por figuras como Peter Thiel o Marc Andreessen) son sólo algunos ejemplos significativos que parten del principio de exit. Por eso, no es casualidad que se desarrollen en zonas con vacíos legales, que escapan a la regulación estatal y de organismos internacionales. Lugares donde la utopía neorreacionaria puede arrancar de cero, sin necesidad de implicarse en la política y tener que hacer uso de la voz. El neorreacionario vota con los pies. Pero ¿qué tiene que ver todo esto con Groenlandia?

V

Praxis es una empresa fundada en 2019 por Dryden Brown y Charlie Callinan, que se autodefine como una nación digital. Según su página web, cuenta con 151.068 praxianos y un valor de 1,117 mil millones de dólares. La ciudadanía se obtiene mediante el pago de una cuota que da acceso a una “Zona Económica Especial”, denominada “zona de aceleración”, la cual se apoya en cuatro pilares fundamentales: IA, criptomonedas, desregulación energética y biotecnología. 

El modelo institucional sigue el esquema de las DAO (Decentralized Autonomous Organizations), comunidades digitales cuyas reglas de gobernanza están codificadas en smart contracts mediante blockchains, ejecutándose automáticamente sin intermediarios humanos. Inspirada en utopías libertarias, las DAOs han sido criticadas por varios autores que señalan su deriva hacia modelos autoritarios y tecnocráticos.

Pues bien, el punto es que Praxis está interesada en desarrollar ciudades inteligentes en Groenlandia. Según Brown, quien ya sondeó la compra de territorios a las autoridades groenlandesas, el consorcio ya cuenta con una financiación de 525 millones de dolares. Entre los inversores de Praxis se encuentran —redoble de tambor—: Peter Thiel, Patrick Friedman, Balaji Srinivasan, Marc Andreessen, Sam Altman, entre otras figuras destacadas de Silicon Valley. 

Es más, recientemente Donald Trump ha designado a Ken Howery como embajador en Dinamarca y encargado de dirigir las negociaciones para la adquisición de Groenlandia. ¿Y quién —dirá usted— es este tal Howery? Pues —de nuevo redoble de tambor— otra de las figuras destacadas de la reactoesfera de Silicon Valley: miembro fundador de PayPal, junto con Peter Thiel y Elon Musk, inversor de SpaceX, fundador, junto con Thiel y Alex Karp, de Palantir, y director de Founder Fund (un fondo de capital de riesgo enfocado en startups) junto con Luke Nosek.

Groenlandia, que cuenta con la densidad de población más baja del mundo (0,026 personas por km²), puede considerarse entonces como un enclave excepcional para desarrollar la estrategia de salida que caracteriza al movimiento neorrecacionario; en otras palabras: Praxis = Exit

Pero aún cabría preguntarse por el sentido que tiene todo esto. ¿No estaremos ante una excentricidad más de ultrarricos que sólo quieren asilarse y desentenderse de la suerte que depare al resto de la humanidad? Naomi Klein y Astra Taylor han señalado que la élite estadounidense, y especialmente la de Silicon Valley, ha caido presa del síndrome Armagadeon. La salvación universal se ha vuelto imposible: Praxis en Groenlandia no sería sino un arca de Noé para ultrarricos, “los elegidos” para salvarse del diluvio universal que se aproxima.

No termino de compartir este diagnóstico, como tuve ocasión de señalar en la revista Sin Permiso, en respuesta al artículo de Klein y Taylor. No creo que la utopía de Praxis en Groenlandia se reduzca a una cápsula de escape frente a un mundo que colapsa, una suerte de Mayflower tuneado con GPS y motor SpaceX. No, Praxis es algo más. 

Es otro de esos experimentos del nuevo orden neorreacionario por venir. Son pruebas del sistema operativo que se pretende instalar cuando llegue el momento de resetear la vieja versión que ahora disponemos. Nick Land habla de “hiperstición”: ficciones que se hacen reales al actuarlas, “visitas” del futuro que configuran el presente. En otras palabras, y sin tanta pirotecnia aceleracionista, Praxis es el ensayo de una oikocracia, de una oligarquía de propietarios sustentada sobre cadenas de dependencia personal, ciudadanos de segunda y trabajadores manuales sometidos a condiciones de semiservidumbre.  

VI

Resulta pertinente recordar, a contrapelo del argumento de Klein y Taylor, que no debemos realizar una lectura literal del discurso neorreaccionario, especialmente cuando se solapa con el libertarismo. El sueño: fragmentar el sistema de estados actual en un patchwork de soberanías privadas, donde ciudadanos-propietarios gestionen un consejo de administración mediante protocolos tokenizados, donde la aceleración tecnológica produzca por sí misma prosperidad y donde se goce de seguridad mediante la combinación de un estilo de vida homogéneo con mecanismos de gubernamentalidad algorítmica. Quien no esté de acuerdo, aún conserva, según Friedman, el único derecho humano que lo asiste: el derecho de salida.

Pero las cosas, qué duda cabe, no son así de simples. Este sector de Silicon Valley al que nos hemos referido quizás pueda obnubilarse con las fantasías de Ayn Rand y con las pesadillas de Murray Rothbard. Pero su reino no deja de ser de este mundo, pues sus intereses de clases están estrechamente vinculados a la suerte del Estado y del imperio estadounidense. 

Groenlandia es de interés nacional, primero por sus recursos económicos, necesarios para la industria de Silicon Valley (capacidad para albergar los centros de datos de la IA con mayor consumo energético y minerales para fabricar baterías, chips, conductores, etc.). Por eso, incluso “progres” de Seattle como Jeff Bezos o Bill Gates ya han invertido el aguinaldo en Kobold Metals, empresa especializada en explotar tierras raras que ya trabaja en Groenlandia.  

Pero, aún más importante, Groenlandia es una cuestión de seguridad nacional por motivos militares y geopolíticos. Aquí es donde los progres dan paso a los neorreacionarios de Silicon Valley: Andreessen Horowitz, Palantir, Anduril, Starlink, Oracle constituyen el sistema de ciberseguridad y minería de datos del que depende en gran medida la estrategia estadounidense de seguridad nacional, desde la CIA hasta la NSA, pasando por la Fuerza Aérea y a Fuerza Espacial, o el Cuerpo de Marines.

Recientemente Daniel Arjona escribió un interesantísimo artículo en El Arjonauta donde desgranaba el papel esencial que desempeñó Alex Karp, CEO de Palantir, en la odiosa “Operación Determinación Absoluta” del pasado 3 de enero. Según Arjona el rol de Karp y de Palantir fue el de procesar el inabarcable ruido generado por la montaña de datos que podría permitir la captura de Maduro. “Karp no vende datos, sino la capacidad de entenderlos”, afirma Arjona. Y es que la gubernamentalidad algorítmica requiere de algo más que materia prima. Cuando dispone de ello es capaz de adelantarse al porvenir: el sistema “no sólo dijo a los comandos dónde estaba Maduro; les dijo hacia dónde iba a moverse”. De nuevo nos topamos con el No Future! Pero ahora no por exceso de incertidumbre, sino por su ausencia absoluta. En Venezuela, los Sex Pistols dan paso a George Orwell.       

VII

Marc Andreessen y Peter Thiel son declarados defensores de la anexión de Groenlandia. Sobre los motivos económicos y militares que justifican esta postura ya se ha hablado y se hablará aún más. De lo que se hablará menos es del objetivo político que hace apetecible Groenlandia para este sector reaccionario del tecno-capitalismo norteamericano. Y es que esta tierra a la que arribó en el siglo X Erik el Rojo (ironías de la historia), y a la que puso por nombre “Tierra Verde” (Erik, además de rojo, era un socarrón), es un espacio privilegiado para experimentar la utopía neorreaccionaria por la que suspiran estos freaks con ansias de venganza e ínfulas imperiales.

Sigo sin poder responder a la pregunta de mi madre, que al fin y al cabo es la pregunta que realmente importa. Pero de lo que sí estoy seguro es de lo triste que lucen las pobres almas de los resentidos con poder, en su infantil megalomanía. El caso de Groenlandia representa muchas de las contradicciones del mundo en el que hoy nos encontramos. Oponerse a su anexión es también oponerse a esas utopías que nos hundirán en los tiempos oscuros. 

Alejandro Estrella González  Es profesor-investigador titular del Departamento de Humanidades de la Universidad Autónoma Metropolitana de México y pertenece al Sistema Nacional de Investigadores. Ha publicado obras como «Clío ante el espejo. Un socioanálisis de E.P. Thompson». Universidad de Cádiz-UAM. Cuajimalpa (2011); «Libertad, progreso y autenticidad. Ideas sobre México a través de las generaciones filosóficas». Editorial Jus (2014) y ha editado la selección de textos «E. P. Thompson. Democracia y socialismo». Edición crítica, UAM-Cuajimalpa/CLACSO (2016)