O Instituto Superior de Estudos Brasileiros tem por finalidade o estudo, o ensino e a divulgação das Ciências Sociais, notadamente da Economia, da Sociologia, da Política, da História e da Filosofia, a fim de aplicar as categorias e os métodos dessas ciências à análise e à compreensão crítica da realidade brasileira, tendo em vista a elaboração de instrumentos teóricos que permitam o incentivo e a promoção do desenvolvimento.
— Roland Corbisier, 1957
De momento, incumbe-nos compreender que cada vez mais precisamos entrelaçar relações de amizade e ação comum com os povos asiáticos, africanos e os do nosso próprio continente, que se encontram em situação semelhante à nossa. Com este movimento, quebraremos o esquema da dominação imperialista, que só funciona a contento com o parcelamento da polaridade entre o centro e a periferia.
— Álvaro Vieira Pinto,1960
As raízes do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) remontam a um grupo de estudos criado por Hélio Jaguaribe, em 1953, que buscava investigar as causas do subdesenvolvimento e do desenvolvimento. À época, a intelectualidade brasileira encontrava-se em plena euforia desenvolvimentista. Em 1950, Getúlio Vargas fora democraticamente eleito presidente do Brasil. Influenciado pela CEPAL, o governo Vargas teve o mérito de combinar altas taxas de crescimento econômico com políticas redistributivas favoráveis à classe trabalhadora. Alguns membros do grupo de Jaguaribe eram próximos da administração varguista e solicitaram ao governo a criação de um instituto de pesquisa. O Ministério da Educação e Cultura (MEC) foi receptivo à proposta. O suicídio de Vargas em 1954, entretanto, fez com que se adiasse por quase um ano a criação de um centro de pesquisa dedicado a pensar o desenvolvimento.
Em julho de 1955 o Presidente João Café Filho criou, por meio de decreto, o ISEB. Vinculado ao MEC, o ISEB fora concebido como um centro permanente de altos estudos de nível pós-universitário com cinco departamentos: Economia, Filosofia, História, Política e Sociologia. Durante seus quase nove anos de existência, o ISEB percorreu três fases. A primeira delas abrigou duas vertentes concorrentes. Enquanto docentes como Jaguaribe e Roberto Campos postulavam a hegemonia da burguesia industrial no processo do desenvolvimento nacional, professores como Álvaro Vieira Pinto e Nelson Werneck Sodré entendiam que o desenvolvimento deveria ser liderado pelas massas populares. Esta primeira fase coincidiu com o período de maior financiamento do Instituto e grande proximidade com o governo.
Em 1958, Jaguaribe publica O nacionalismo na atualidade brasileira. O livro gera polêmica dentro e fora do Instituto porque defende a privatização do setor petroquímico e o capital estrangeiro. O Conselho Curador do ISEB marcou uma reunião especial para discutir a repercussão da obra. Depois dessa crise, todos os professores que se incomodavam com o “proselitismo militante” de alguns isebianos de esquerda saíram do Instituto (Jaguaribe, 2014, p. 238).
A segunda fase do ISEB começa em 1959 e vai até 1961. De acordo com um dos professores que saíram do Instituto no final dos anos cinquenta, a partir de sua segunda fase, “o ISEB se transformou numa agência eleitoreira, e ultimamente, numa escola de marxismo” (apud Toledo, 1977, p. 188). Embora exagerado, o relato de que o ISEB teria se tornado “eleitoreiro” é compreensível porque, em 1960, Corbisier concorreu ao cargo de deputado estadual e se valeu do Instituto como plataforma para a sua campanha. Difundia-se entre os isebianos a ideia de que eles deveriam não apenas compreender a realidade brasileira, mas também transformá-la. Por isso, a formação de futuros estadistas passou a ser vista como uma das funções do Instituto.
Em 1961, Corbisier tornou-se deputado estadual e, portanto, teve de se afastar do ISEB. Logo em seguida, Vieira Pinto assumiu a direção do Instituto. A terceira fase se inicia com a direção de Vieira Pinto e termina uma semana após o golpe de Estado de 1964, quando o ISEB é fechado pelos militares. Esta fase coincide com a radicalização do populismo presenciada durante o governo de João Goulart (1961–1964) e com a quase inexistência de financiamento governamental para o Instituto.
À medida que o contexto político brasileiro se radicalizava, a produção teórica do ISEB também se radicalizava. O chamado “último ISEB” teve um engajamento tão forte com os movimentos sociais de esquerda e com o Partido Comunista Brasileiro que alguns intérpretes o classificaram de organização agitprop. De 1962 em diante, os membros do Instituto consideravam o país em vias de ingressar em um momento revolucionário, conduzido pelo próprio processo de radicalização do governo Goulart. Diante dessas circunstâncias, o ISEB se constituiu em um dos centros de pressão para incrementar tal radicalização. Concebido inicialmente como um centro irradiador do nacional-desenvolvimentismo de Kubitschek, o ISEB se tornara um polo difusor da revolução brasileira.
Esclareça-se, todavia, que a mudança não significa um abandono da preocupação com o desenvolvimento. É equivocado reduzir “desenvolvimento” e “desenvolvimentismo” a discursos que seriam necessariamente anti-emancipatórios. Filho das teorias do progresso da Filosofia Moderna, o desenvolvimentismo compõe-se de duas teses centrais. A primeira delas consiste no etapismo, ou seja, na crença de que a história tem diferentes etapas e de que o desenvolvimento aumenta conforme se passa de uma etapa a outra. A segunda tese central do desenvolvimentismo é a de que a passagem de uma etapa inferior a outra superior não é aleatória, mas sim regida por determinadas causas. Ainda que tenha sido mobilizado para justificar a dominação dos povos outrora colonizados pelos europeus, o desenvolvimentismo é compatível com projetos de emancipação social. Um dos aspectos mais interessantes do ISEB foi o desenvolvimentismo anticolonial produzido em sua última fase (Dalaqua, 2024). Ao passo que, na primeira fase do ISEB, o desenvolvimento era visto como um processo alinhado ao capitalismo e à democracia burguesa, no apagar das luzes do Instituto, os isebianos passaram a afirmar que a revolução socialista e a união dos movimentos libertadores da América Latina, África e Ásia seriam os principais motores do desenvolvimento.
Livros publicados pela Editora do ISEB:
Corbisier, R. (1958). Formação e problema da cultura brasileira. ISEB.
Corbisier, R. (1960). Brasília e o desenvolvimento nacional. ISEB.
Furtado, C. (1959). A Operação Nordeste. ISEB.
Jaguaribe, H. (1958). O nacionalismo na atualidade brasileira. ISEB.
Mendes, C. (1960). Perspectiva atual da América Latina. ISEB.
Pinto, A. V. (1956). Ideologia e desenvolvimento nacional. ISEB.
Pinto, A. V. (1960). Consciência e realidade nacional (Vols. 1–2). ISEB.
Ramos, A. G. (1958). A redução sociológica. ISEB.
Sodré, N. W. (1957). As classes sociais no Brasil. ISEB.
Publicações sobre o ISEB:
Botelho, A., Bastos, E. R., & Villas Bôas, G. (Orgs.). (2008). O moderno em questão: a década de 1950 no Brasil. Topbooks.
Dalaqua, G. H. (2023). Populismo e democracia: reflexões a partir de Álvaro Vieira Pinto. Novos Estudos CEBRAP, 42(2), 293–312.
Dalaqua, G. H. (2024). Revolution in Populism: Anticolonial Developmentalism in Brazil’s Populist Republic. The Journal of Imperial and Commonwealth History, 52(6), 969‑1002. https://doi.org/10.1080/03086534.2024.2445010
Gonçalves, D. S. M. (2020). Ciência e política, ciência ou política: o ISEB e suas duas vocações. Revista Estudos Políticos, 9(2), 24–41.
Jaguaribe, H. (2014). ISEB: um breve depoimento e uma reapreciação crítica. Cadernos do Desenvolvimento, 9(14), 231–260.
Souza, N. A., & Capovilla, C. (Orgs.). (2021). Dossiê temático: o ISEB e o desenvolvimento nacional. Princípios, 40(162), 4–202.
Toledo, C. N. (1977). ISEB: fábrica de ideologias. Ática.
Toledo, C. N. (1998). Intelectuais do ISEB, esquerda e marxismo. In J. Q. Moraes (Org.), História do marxismo no Brasil (Vol. 3, pp. 245–274). Editora da Unicamp.
Toledo, C. N. (Org.). (2005). Intelectuais e política no Brasil: a experiência do ISEB. Revan.
Otros enlaces:
Página do Memorial da Democracia sobre o ISEB.
Apresenta uma extensa lista de livros e artigos sobre o ISEB.

Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB)
Gustavo Dalaqua. Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas e investigador associado da Association for Global Political Thought, Universidade Harvard.
O Instituto Superior de Estudos Brasileiros tem por finalidade o estudo, o ensino e a divulgação das Ciências Sociais, notadamente da Economia, da Sociologia, da Política, da História e da Filosofia, a fim de aplicar as categorias e os métodos dessas ciências à análise e à compreensão crítica da realidade brasileira, tendo em vista a elaboração de instrumentos teóricos que permitam o incentivo e a promoção do desenvolvimento.
— Roland Corbisier, 1957
De momento, incumbe-nos compreender que cada vez mais precisamos entrelaçar relações de amizade e ação comum com os povos asiáticos, africanos e os do nosso próprio continente, que se encontram em situação semelhante à nossa. Com este movimento, quebraremos o esquema da dominação imperialista, que só funciona a contento com o parcelamento da polaridade entre o centro e a periferia.
— Álvaro Vieira Pinto,1960
As raízes do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) remontam a um grupo de estudos criado por Hélio Jaguaribe, em 1953, que buscava investigar as causas do subdesenvolvimento e do desenvolvimento. À época, a intelectualidade brasileira encontrava-se em plena euforia desenvolvimentista. Em 1950, Getúlio Vargas fora democraticamente eleito presidente do Brasil. Influenciado pela CEPAL, o governo Vargas teve o mérito de combinar altas taxas de crescimento econômico com políticas redistributivas favoráveis à classe trabalhadora. Alguns membros do grupo de Jaguaribe eram próximos da administração varguista e solicitaram ao governo a criação de um instituto de pesquisa. O Ministério da Educação e Cultura (MEC) foi receptivo à proposta. O suicídio de Vargas em 1954, entretanto, fez com que se adiasse por quase um ano a criação de um centro de pesquisa dedicado a pensar o desenvolvimento.
Em julho de 1955 o Presidente João Café Filho criou, por meio de decreto, o ISEB. Vinculado ao MEC, o ISEB fora concebido como um centro permanente de altos estudos de nível pós-universitário com cinco departamentos: Economia, Filosofia, História, Política e Sociologia. Durante seus quase nove anos de existência, o ISEB percorreu três fases. A primeira delas abrigou duas vertentes concorrentes. Enquanto docentes como Jaguaribe e Roberto Campos postulavam a hegemonia da burguesia industrial no processo do desenvolvimento nacional, professores como Álvaro Vieira Pinto e Nelson Werneck Sodré entendiam que o desenvolvimento deveria ser liderado pelas massas populares. Esta primeira fase coincidiu com o período de maior financiamento do Instituto e grande proximidade com o governo.
Em 1958, Jaguaribe publica O nacionalismo na atualidade brasileira. O livro gera polêmica dentro e fora do Instituto porque defende a privatização do setor petroquímico e o capital estrangeiro. O Conselho Curador do ISEB marcou uma reunião especial para discutir a repercussão da obra. Depois dessa crise, todos os professores que se incomodavam com o “proselitismo militante” de alguns isebianos de esquerda saíram do Instituto (Jaguaribe, 2014, p. 238).
A segunda fase do ISEB começa em 1959 e vai até 1961. De acordo com um dos professores que saíram do Instituto no final dos anos cinquenta, a partir de sua segunda fase, “o ISEB se transformou numa agência eleitoreira, e ultimamente, numa escola de marxismo” (apud Toledo, 1977, p. 188). Embora exagerado, o relato de que o ISEB teria se tornado “eleitoreiro” é compreensível porque, em 1960, Corbisier concorreu ao cargo de deputado estadual e se valeu do Instituto como plataforma para a sua campanha. Difundia-se entre os isebianos a ideia de que eles deveriam não apenas compreender a realidade brasileira, mas também transformá-la. Por isso, a formação de futuros estadistas passou a ser vista como uma das funções do Instituto.
Em 1961, Corbisier tornou-se deputado estadual e, portanto, teve de se afastar do ISEB. Logo em seguida, Vieira Pinto assumiu a direção do Instituto. A terceira fase se inicia com a direção de Vieira Pinto e termina uma semana após o golpe de Estado de 1964, quando o ISEB é fechado pelos militares. Esta fase coincide com a radicalização do populismo presenciada durante o governo de João Goulart (1961–1964) e com a quase inexistência de financiamento governamental para o Instituto.
À medida que o contexto político brasileiro se radicalizava, a produção teórica do ISEB também se radicalizava. O chamado “último ISEB” teve um engajamento tão forte com os movimentos sociais de esquerda e com o Partido Comunista Brasileiro que alguns intérpretes o classificaram de organização agitprop. De 1962 em diante, os membros do Instituto consideravam o país em vias de ingressar em um momento revolucionário, conduzido pelo próprio processo de radicalização do governo Goulart. Diante dessas circunstâncias, o ISEB se constituiu em um dos centros de pressão para incrementar tal radicalização. Concebido inicialmente como um centro irradiador do nacional-desenvolvimentismo de Kubitschek, o ISEB se tornara um polo difusor da revolução brasileira.
Esclareça-se, todavia, que a mudança não significa um abandono da preocupação com o desenvolvimento. É equivocado reduzir “desenvolvimento” e “desenvolvimentismo” a discursos que seriam necessariamente anti-emancipatórios. Filho das teorias do progresso da Filosofia Moderna, o desenvolvimentismo compõe-se de duas teses centrais. A primeira delas consiste no etapismo, ou seja, na crença de que a história tem diferentes etapas e de que o desenvolvimento aumenta conforme se passa de uma etapa a outra. A segunda tese central do desenvolvimentismo é a de que a passagem de uma etapa inferior a outra superior não é aleatória, mas sim regida por determinadas causas. Ainda que tenha sido mobilizado para justificar a dominação dos povos outrora colonizados pelos europeus, o desenvolvimentismo é compatível com projetos de emancipação social. Um dos aspectos mais interessantes do ISEB foi o desenvolvimentismo anticolonial produzido em sua última fase (Dalaqua, 2024). Ao passo que, na primeira fase do ISEB, o desenvolvimento era visto como um processo alinhado ao capitalismo e à democracia burguesa, no apagar das luzes do Instituto, os isebianos passaram a afirmar que a revolução socialista e a união dos movimentos libertadores da América Latina, África e Ásia seriam os principais motores do desenvolvimento.
Livros publicados pela Editora do ISEB:
Corbisier, R. (1958). Formação e problema da cultura brasileira. ISEB.
Corbisier, R. (1960). Brasília e o desenvolvimento nacional. ISEB.
Furtado, C. (1959). A Operação Nordeste. ISEB.
Jaguaribe, H. (1958). O nacionalismo na atualidade brasileira. ISEB.
Mendes, C. (1960). Perspectiva atual da América Latina. ISEB.
Pinto, A. V. (1956). Ideologia e desenvolvimento nacional. ISEB.
Pinto, A. V. (1960). Consciência e realidade nacional (Vols. 1–2). ISEB.
Ramos, A. G. (1958). A redução sociológica. ISEB.
Sodré, N. W. (1957). As classes sociais no Brasil. ISEB.
Publicações sobre o ISEB:
Botelho, A., Bastos, E. R., & Villas Bôas, G. (Orgs.). (2008). O moderno em questão: a década de 1950 no Brasil. Topbooks.
Dalaqua, G. H. (2023). Populismo e democracia: reflexões a partir de Álvaro Vieira Pinto. Novos Estudos CEBRAP, 42(2), 293–312.
Dalaqua, G. H. (2024). Revolution in Populism: Anticolonial Developmentalism in Brazil’s Populist Republic. The Journal of Imperial and Commonwealth History, 52(6), 969‑1002. https://doi.org/10.1080/03086534.2024.2445010
Gonçalves, D. S. M. (2020). Ciência e política, ciência ou política: o ISEB e suas duas vocações. Revista Estudos Políticos, 9(2), 24–41.
Jaguaribe, H. (2014). ISEB: um breve depoimento e uma reapreciação crítica. Cadernos do Desenvolvimento, 9(14), 231–260.
Souza, N. A., & Capovilla, C. (Orgs.). (2021). Dossiê temático: o ISEB e o desenvolvimento nacional. Princípios, 40(162), 4–202.
Toledo, C. N. (1977). ISEB: fábrica de ideologias. Ática.
Toledo, C. N. (1998). Intelectuais do ISEB, esquerda e marxismo. In J. Q. Moraes (Org.), História do marxismo no Brasil (Vol. 3, pp. 245–274). Editora da Unicamp.
Toledo, C. N. (Org.). (2005). Intelectuais e política no Brasil: a experiência do ISEB. Revan.
Otros enlaces:
Página do Memorial da Democracia sobre o ISEB.
Apresenta uma extensa lista de livros e artigos sobre o ISEB.
Galería

Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB)
Gustavo Dalaqua. Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas e investigador associado da Association for Global Political Thought, Universidade Harvard.
O Instituto Superior de Estudos Brasileiros tem por finalidade o estudo, o ensino e a divulgação das Ciências Sociais, notadamente da Economia, da Sociologia, da Política, da História e da Filosofia, a fim de aplicar as categorias e os métodos dessas ciências à análise e à compreensão crítica da realidade brasileira, tendo em vista a elaboração de instrumentos teóricos que permitam o incentivo e a promoção do desenvolvimento.
— Roland Corbisier, 1957
De momento, incumbe-nos compreender que cada vez mais precisamos entrelaçar relações de amizade e ação comum com os povos asiáticos, africanos e os do nosso próprio continente, que se encontram em situação semelhante à nossa. Com este movimento, quebraremos o esquema da dominação imperialista, que só funciona a contento com o parcelamento da polaridade entre o centro e a periferia.
— Álvaro Vieira Pinto,1960
As raízes do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) remontam a um grupo de estudos criado por Hélio Jaguaribe, em 1953, que buscava investigar as causas do subdesenvolvimento e do desenvolvimento. À época, a intelectualidade brasileira encontrava-se em plena euforia desenvolvimentista. Em 1950, Getúlio Vargas fora democraticamente eleito presidente do Brasil. Influenciado pela CEPAL, o governo Vargas teve o mérito de combinar altas taxas de crescimento econômico com políticas redistributivas favoráveis à classe trabalhadora. Alguns membros do grupo de Jaguaribe eram próximos da administração varguista e solicitaram ao governo a criação de um instituto de pesquisa. O Ministério da Educação e Cultura (MEC) foi receptivo à proposta. O suicídio de Vargas em 1954, entretanto, fez com que se adiasse por quase um ano a criação de um centro de pesquisa dedicado a pensar o desenvolvimento.
Em julho de 1955 o Presidente João Café Filho criou, por meio de decreto, o ISEB. Vinculado ao MEC, o ISEB fora concebido como um centro permanente de altos estudos de nível pós-universitário com cinco departamentos: Economia, Filosofia, História, Política e Sociologia. Durante seus quase nove anos de existência, o ISEB percorreu três fases. A primeira delas abrigou duas vertentes concorrentes. Enquanto docentes como Jaguaribe e Roberto Campos postulavam a hegemonia da burguesia industrial no processo do desenvolvimento nacional, professores como Álvaro Vieira Pinto e Nelson Werneck Sodré entendiam que o desenvolvimento deveria ser liderado pelas massas populares. Esta primeira fase coincidiu com o período de maior financiamento do Instituto e grande proximidade com o governo.
Em 1958, Jaguaribe publica O nacionalismo na atualidade brasileira. O livro gera polêmica dentro e fora do Instituto porque defende a privatização do setor petroquímico e o capital estrangeiro. O Conselho Curador do ISEB marcou uma reunião especial para discutir a repercussão da obra. Depois dessa crise, todos os professores que se incomodavam com o “proselitismo militante” de alguns isebianos de esquerda saíram do Instituto (Jaguaribe, 2014, p. 238).
A segunda fase do ISEB começa em 1959 e vai até 1961. De acordo com um dos professores que saíram do Instituto no final dos anos cinquenta, a partir de sua segunda fase, “o ISEB se transformou numa agência eleitoreira, e ultimamente, numa escola de marxismo” (apud Toledo, 1977, p. 188). Embora exagerado, o relato de que o ISEB teria se tornado “eleitoreiro” é compreensível porque, em 1960, Corbisier concorreu ao cargo de deputado estadual e se valeu do Instituto como plataforma para a sua campanha. Difundia-se entre os isebianos a ideia de que eles deveriam não apenas compreender a realidade brasileira, mas também transformá-la. Por isso, a formação de futuros estadistas passou a ser vista como uma das funções do Instituto.
Em 1961, Corbisier tornou-se deputado estadual e, portanto, teve de se afastar do ISEB. Logo em seguida, Vieira Pinto assumiu a direção do Instituto. A terceira fase se inicia com a direção de Vieira Pinto e termina uma semana após o golpe de Estado de 1964, quando o ISEB é fechado pelos militares. Esta fase coincide com a radicalização do populismo presenciada durante o governo de João Goulart (1961–1964) e com a quase inexistência de financiamento governamental para o Instituto.
À medida que o contexto político brasileiro se radicalizava, a produção teórica do ISEB também se radicalizava. O chamado “último ISEB” teve um engajamento tão forte com os movimentos sociais de esquerda e com o Partido Comunista Brasileiro que alguns intérpretes o classificaram de organização agitprop. De 1962 em diante, os membros do Instituto consideravam o país em vias de ingressar em um momento revolucionário, conduzido pelo próprio processo de radicalização do governo Goulart. Diante dessas circunstâncias, o ISEB se constituiu em um dos centros de pressão para incrementar tal radicalização. Concebido inicialmente como um centro irradiador do nacional-desenvolvimentismo de Kubitschek, o ISEB se tornara um polo difusor da revolução brasileira.
Esclareça-se, todavia, que a mudança não significa um abandono da preocupação com o desenvolvimento. É equivocado reduzir “desenvolvimento” e “desenvolvimentismo” a discursos que seriam necessariamente anti-emancipatórios. Filho das teorias do progresso da Filosofia Moderna, o desenvolvimentismo compõe-se de duas teses centrais. A primeira delas consiste no etapismo, ou seja, na crença de que a história tem diferentes etapas e de que o desenvolvimento aumenta conforme se passa de uma etapa a outra. A segunda tese central do desenvolvimentismo é a de que a passagem de uma etapa inferior a outra superior não é aleatória, mas sim regida por determinadas causas. Ainda que tenha sido mobilizado para justificar a dominação dos povos outrora colonizados pelos europeus, o desenvolvimentismo é compatível com projetos de emancipação social. Um dos aspectos mais interessantes do ISEB foi o desenvolvimentismo anticolonial produzido em sua última fase (Dalaqua, 2024). Ao passo que, na primeira fase do ISEB, o desenvolvimento era visto como um processo alinhado ao capitalismo e à democracia burguesa, no apagar das luzes do Instituto, os isebianos passaram a afirmar que a revolução socialista e a união dos movimentos libertadores da América Latina, África e Ásia seriam os principais motores do desenvolvimento.
Livros publicados pela Editora do ISEB:
Corbisier, R. (1958). Formação e problema da cultura brasileira. ISEB.
Corbisier, R. (1960). Brasília e o desenvolvimento nacional. ISEB.
Furtado, C. (1959). A Operação Nordeste. ISEB.
Jaguaribe, H. (1958). O nacionalismo na atualidade brasileira. ISEB.
Mendes, C. (1960). Perspectiva atual da América Latina. ISEB.
Pinto, A. V. (1956). Ideologia e desenvolvimento nacional. ISEB.
Pinto, A. V. (1960). Consciência e realidade nacional (Vols. 1–2). ISEB.
Ramos, A. G. (1958). A redução sociológica. ISEB.
Sodré, N. W. (1957). As classes sociais no Brasil. ISEB.
Publicações sobre o ISEB:
Botelho, A., Bastos, E. R., & Villas Bôas, G. (Orgs.). (2008). O moderno em questão: a década de 1950 no Brasil. Topbooks.
Dalaqua, G. H. (2023). Populismo e democracia: reflexões a partir de Álvaro Vieira Pinto. Novos Estudos CEBRAP, 42(2), 293–312.
Dalaqua, G. H. (2024). Revolution in Populism: Anticolonial Developmentalism in Brazil’s Populist Republic. The Journal of Imperial and Commonwealth History, 52(6), 969‑1002. https://doi.org/10.1080/03086534.2024.2445010
Gonçalves, D. S. M. (2020). Ciência e política, ciência ou política: o ISEB e suas duas vocações. Revista Estudos Políticos, 9(2), 24–41.
Jaguaribe, H. (2014). ISEB: um breve depoimento e uma reapreciação crítica. Cadernos do Desenvolvimento, 9(14), 231–260.
Souza, N. A., & Capovilla, C. (Orgs.). (2021). Dossiê temático: o ISEB e o desenvolvimento nacional. Princípios, 40(162), 4–202.
Toledo, C. N. (1977). ISEB: fábrica de ideologias. Ática.
Toledo, C. N. (1998). Intelectuais do ISEB, esquerda e marxismo. In J. Q. Moraes (Org.), História do marxismo no Brasil (Vol. 3, pp. 245–274). Editora da Unicamp.
Toledo, C. N. (Org.). (2005). Intelectuais e política no Brasil: a experiência do ISEB. Revan.
Otros enlaces:
Página do Memorial da Democracia sobre o ISEB.
Apresenta uma extensa lista de livros e artigos sobre o ISEB.
Galería

Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB)
Gustavo Dalaqua. Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas e investigador associado da Association for Global Political Thought, Universidade Harvard.
O Instituto Superior de Estudos Brasileiros tem por finalidade o estudo, o ensino e a divulgação das Ciências Sociais, notadamente da Economia, da Sociologia, da Política, da História e da Filosofia, a fim de aplicar as categorias e os métodos dessas ciências à análise e à compreensão crítica da realidade brasileira, tendo em vista a elaboração de instrumentos teóricos que permitam o incentivo e a promoção do desenvolvimento.
— Roland Corbisier, 1957
De momento, incumbe-nos compreender que cada vez mais precisamos entrelaçar relações de amizade e ação comum com os povos asiáticos, africanos e os do nosso próprio continente, que se encontram em situação semelhante à nossa. Com este movimento, quebraremos o esquema da dominação imperialista, que só funciona a contento com o parcelamento da polaridade entre o centro e a periferia.
— Álvaro Vieira Pinto,1960
As raízes do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) remontam a um grupo de estudos criado por Hélio Jaguaribe, em 1953, que buscava investigar as causas do subdesenvolvimento e do desenvolvimento. À época, a intelectualidade brasileira encontrava-se em plena euforia desenvolvimentista. Em 1950, Getúlio Vargas fora democraticamente eleito presidente do Brasil. Influenciado pela CEPAL, o governo Vargas teve o mérito de combinar altas taxas de crescimento econômico com políticas redistributivas favoráveis à classe trabalhadora. Alguns membros do grupo de Jaguaribe eram próximos da administração varguista e solicitaram ao governo a criação de um instituto de pesquisa. O Ministério da Educação e Cultura (MEC) foi receptivo à proposta. O suicídio de Vargas em 1954, entretanto, fez com que se adiasse por quase um ano a criação de um centro de pesquisa dedicado a pensar o desenvolvimento.
Em julho de 1955 o Presidente João Café Filho criou, por meio de decreto, o ISEB. Vinculado ao MEC, o ISEB fora concebido como um centro permanente de altos estudos de nível pós-universitário com cinco departamentos: Economia, Filosofia, História, Política e Sociologia. Durante seus quase nove anos de existência, o ISEB percorreu três fases. A primeira delas abrigou duas vertentes concorrentes. Enquanto docentes como Jaguaribe e Roberto Campos postulavam a hegemonia da burguesia industrial no processo do desenvolvimento nacional, professores como Álvaro Vieira Pinto e Nelson Werneck Sodré entendiam que o desenvolvimento deveria ser liderado pelas massas populares. Esta primeira fase coincidiu com o período de maior financiamento do Instituto e grande proximidade com o governo.
Em 1958, Jaguaribe publica O nacionalismo na atualidade brasileira. O livro gera polêmica dentro e fora do Instituto porque defende a privatização do setor petroquímico e o capital estrangeiro. O Conselho Curador do ISEB marcou uma reunião especial para discutir a repercussão da obra. Depois dessa crise, todos os professores que se incomodavam com o “proselitismo militante” de alguns isebianos de esquerda saíram do Instituto (Jaguaribe, 2014, p. 238).
A segunda fase do ISEB começa em 1959 e vai até 1961. De acordo com um dos professores que saíram do Instituto no final dos anos cinquenta, a partir de sua segunda fase, “o ISEB se transformou numa agência eleitoreira, e ultimamente, numa escola de marxismo” (apud Toledo, 1977, p. 188). Embora exagerado, o relato de que o ISEB teria se tornado “eleitoreiro” é compreensível porque, em 1960, Corbisier concorreu ao cargo de deputado estadual e se valeu do Instituto como plataforma para a sua campanha. Difundia-se entre os isebianos a ideia de que eles deveriam não apenas compreender a realidade brasileira, mas também transformá-la. Por isso, a formação de futuros estadistas passou a ser vista como uma das funções do Instituto.
Em 1961, Corbisier tornou-se deputado estadual e, portanto, teve de se afastar do ISEB. Logo em seguida, Vieira Pinto assumiu a direção do Instituto. A terceira fase se inicia com a direção de Vieira Pinto e termina uma semana após o golpe de Estado de 1964, quando o ISEB é fechado pelos militares. Esta fase coincide com a radicalização do populismo presenciada durante o governo de João Goulart (1961–1964) e com a quase inexistência de financiamento governamental para o Instituto.
À medida que o contexto político brasileiro se radicalizava, a produção teórica do ISEB também se radicalizava. O chamado “último ISEB” teve um engajamento tão forte com os movimentos sociais de esquerda e com o Partido Comunista Brasileiro que alguns intérpretes o classificaram de organização agitprop. De 1962 em diante, os membros do Instituto consideravam o país em vias de ingressar em um momento revolucionário, conduzido pelo próprio processo de radicalização do governo Goulart. Diante dessas circunstâncias, o ISEB se constituiu em um dos centros de pressão para incrementar tal radicalização. Concebido inicialmente como um centro irradiador do nacional-desenvolvimentismo de Kubitschek, o ISEB se tornara um polo difusor da revolução brasileira.
Esclareça-se, todavia, que a mudança não significa um abandono da preocupação com o desenvolvimento. É equivocado reduzir “desenvolvimento” e “desenvolvimentismo” a discursos que seriam necessariamente anti-emancipatórios. Filho das teorias do progresso da Filosofia Moderna, o desenvolvimentismo compõe-se de duas teses centrais. A primeira delas consiste no etapismo, ou seja, na crença de que a história tem diferentes etapas e de que o desenvolvimento aumenta conforme se passa de uma etapa a outra. A segunda tese central do desenvolvimentismo é a de que a passagem de uma etapa inferior a outra superior não é aleatória, mas sim regida por determinadas causas. Ainda que tenha sido mobilizado para justificar a dominação dos povos outrora colonizados pelos europeus, o desenvolvimentismo é compatível com projetos de emancipação social. Um dos aspectos mais interessantes do ISEB foi o desenvolvimentismo anticolonial produzido em sua última fase (Dalaqua, 2024). Ao passo que, na primeira fase do ISEB, o desenvolvimento era visto como um processo alinhado ao capitalismo e à democracia burguesa, no apagar das luzes do Instituto, os isebianos passaram a afirmar que a revolução socialista e a união dos movimentos libertadores da América Latina, África e Ásia seriam os principais motores do desenvolvimento.
Livros publicados pela Editora do ISEB:
Corbisier, R. (1958). Formação e problema da cultura brasileira. ISEB.
Corbisier, R. (1960). Brasília e o desenvolvimento nacional. ISEB.
Furtado, C. (1959). A Operação Nordeste. ISEB.
Jaguaribe, H. (1958). O nacionalismo na atualidade brasileira. ISEB.
Mendes, C. (1960). Perspectiva atual da América Latina. ISEB.
Pinto, A. V. (1956). Ideologia e desenvolvimento nacional. ISEB.
Pinto, A. V. (1960). Consciência e realidade nacional (Vols. 1–2). ISEB.
Ramos, A. G. (1958). A redução sociológica. ISEB.
Sodré, N. W. (1957). As classes sociais no Brasil. ISEB.
Publicações sobre o ISEB:
Botelho, A., Bastos, E. R., & Villas Bôas, G. (Orgs.). (2008). O moderno em questão: a década de 1950 no Brasil. Topbooks.
Dalaqua, G. H. (2023). Populismo e democracia: reflexões a partir de Álvaro Vieira Pinto. Novos Estudos CEBRAP, 42(2), 293–312.
Dalaqua, G. H. (2024). Revolution in Populism: Anticolonial Developmentalism in Brazil’s Populist Republic. The Journal of Imperial and Commonwealth History, 52(6), 969‑1002. https://doi.org/10.1080/03086534.2024.2445010
Gonçalves, D. S. M. (2020). Ciência e política, ciência ou política: o ISEB e suas duas vocações. Revista Estudos Políticos, 9(2), 24–41.
Jaguaribe, H. (2014). ISEB: um breve depoimento e uma reapreciação crítica. Cadernos do Desenvolvimento, 9(14), 231–260.
Souza, N. A., & Capovilla, C. (Orgs.). (2021). Dossiê temático: o ISEB e o desenvolvimento nacional. Princípios, 40(162), 4–202.
Toledo, C. N. (1977). ISEB: fábrica de ideologias. Ática.
Toledo, C. N. (1998). Intelectuais do ISEB, esquerda e marxismo. In J. Q. Moraes (Org.), História do marxismo no Brasil (Vol. 3, pp. 245–274). Editora da Unicamp.
Toledo, C. N. (Org.). (2005). Intelectuais e política no Brasil: a experiência do ISEB. Revan.
Otros enlaces:
Página do Memorial da Democracia sobre o ISEB.
Apresenta uma extensa lista de livros e artigos sobre o ISEB.
Galería
